Trocando o consumismo pelo consumo

Para quem não sabe, cuido das redes sociais de algumas marcas cearenses, e lido todo dia com o desejo (e muitas vezes desespero) de alguns consumidores. E já tem um tempo que eu me vejo num conflito entre o consumismo e a moda. Eu amo a moda e trabalho com ela. Também trabalho diretamente com o consumo, mas sou muito mais cautelosa com ele.

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Todo o mundo já leu alguma matéria ou ao menos uma chamada falando que a forma que consumimos está mudando. Passamos a pensar mais em como vamos gastar nosso rico dinheiro – tudo gracas às várias crises que estamos enfrentando (econômica, ecológica, social, etc). Sendo assim, o primeiro passo é substituir o consumo de marcas internacionais por marcas locais menores, pois normalmente elas têm um preço mais em conta, além de não explorarem seus trabalhadores (esse é outro ponto em que os consumidores estão mais exigentes). Também tem o aspecto do desejo pelo novo, já que as marcas mais tradicionais estão apostando apenas no certeiro, no básico, e o desejo de ousadia não está sendo saciado, enquanto as marca menores apostam justamente nesse diferencial.

Só que está rolando um fato muito engraçado: as pessoas ainda não pararam de ser consumistas! E aí vem o conflito entre termos consumidores “mimados” que querem demais e marcas locais “limitadas” que não têm estrutura para produzir pra todo o mundo! Essa conta não bate! Daí vem a frustração em ver o produto que você queria esgotar rapidamente, menos variedade de peças nas lojas, e até dificuldade de encontrar a loja em si, pois algumas marcas nem loja física têm, e quando tem é só uma. Sem falar que agora você dificilmente consegue tudo o que quer em um só lugar (lojas de shoppings são mais caras)! E é esse o tempo doloroso que vivemos, onde temos que aprender a tirar o -ismo do consumismo e nos contentarmos com o simples consumo, limitado, exigente e frustrante.

Ver essa transformação em três ângulos diferentes (como consumidora, como porta-voz de uma marca, e observando os clientes delas) me traz mais questionamentos do que respostas: “como eu, como consumidora, devo lidar com essa minha frustração?”, “como uma marca deve vender seus produtos sem ‘apelar’ para o consumismo?”, “qual a melhor maneira de educar os consumidores mimados que estão se frustrando com as marcas que eu trabalho?”. Ainda não achei as respostas para essas perguntas, mas no caminho a gente vê onde isso vai dar!

– E você, vem sentindo essa leve frustração na hora de comprar? –

5 motivos que me fazem amar moda

Por que você gosta de moda?” é uma pergunta que eu escuto bastante. Acho que isso deve rolar com todos que trabalham na área ou amam o mundo das roupas, acessórios e desfiles. Mas com a moda os sentimentos são sempre intensos, a gente ama mesmo. E como explicar o amor? Com o tempo desenvolvi um discurso mais ou menos pronto para tentar mostrar como a moda pode ser interessante. Só que existem tantos outros motivos! Então, acho que faz muito sentido começar esse blog listando alguns dos principais aspectos da moda que eu amo. Acho até que vou mandar esse link para a próxima pessoa que me fizer essa difícil pergunta!

5 motivos que me fazem amar moda(1)

1. Ela conta histórias

Quando você pensa nos anos 70, tenho certeza que a imagem de um hippie vem à sua mente. Esse fenômeno de ter trajes que representam décadas também pode ser visto facilmente com os anos 50, 20, 80… Eu amo a moda, pois ela consegue traduzir muito do que acontece no mundo em nossas vestimentas – mesmo que a gente não perceba enquanto está usando. Dá para estudar toda história social através das roupas! Um exemplo é essa tendência normcore – consequência dos tempos de crises econômicas que estamos vivendo.

A moda também pode contar histórias pessoais – basta ver suas fotos e relembrar suas roupas preferidas, os motivos para amá-las tanto e o que aconteceu para elas saírem do seu guarda-roupa. Aliás, a blogueira Leandra Medine lançou até um livro falando das histórias das peças que mais marcaram sua vida (se chama Man Repeller, e tem nas principais livrarias do país).

2. A moda é divertida

Eu vejo as tendências como possibilidades para deixar meu guarda-roupa sempre com uma novidade. Encaro as extravagâncias como desafios que testam minha personalidade. Considero novas modelagens como novas maneiras de sair da minha zona de conforto. Examino as cores e estampas como milhões de possibilidades para ilustrar minha imagem por aí. A moda é para brincar de se vestir e de se mostrar! Lembre-se sempre de não levá-la tão a sério.

3. Nos apresenta gênios

Coco Chanel, Christian Dior, Yves Saint Laurent, Marc Jacobs, Alexander McQueen… Mentes brilhantes que criaram obras de arte e revolucionaram a moda. Que lindo é ver uma indústira que dá suporte para pessoas tão inovadoras mostrarem sua arte! E é ainda mais legal ver como seus legados estão até hoje nas ruas.

4. Traz questionamentos

A primeira vez que eu percebi de verdade o quanto a moda pode trazer uma profundidade muito grande de questionamentos foi bem trivial. Eu li numa entrevista o Marc Jacobs explicando seu processo criativo e ele falou que adora criar coisas com gosto duvidoso, para exercitar seu olhar. Na mesma hora isso deu um estalo na minha cabeça e abriu novas percepções. Mas a verdade é que a moda vem trazendo muitos outros questionamentos há tempos, que vão além do que é feio/bonito e tocam nas feridas da sociedade. Tipo Chanel com a abolição dos espartilhos e o novo chique, YSL com a criação do smoking feminino, Jean Paul Gaultier colocando uma modelo transgênera na sua passarela vestida de noiva. Sem falar nos desfiles-performances de Alexander McQueen, Viktor & Rolf, Jun Nakao, entre outros que passaram de forma poética suas mensagens.

5. Cria desejos

Ah, e a moda também me faz sonhar com um vestido lindo, uma bolsa babadeira, um sapato bafo, um colar poderoso. Sim, existe a possibilidade de cair no consumismo, mas basta um pouco de consciência para fugir dessa cilada. Amo também que os desejos estão podendo virar realidade pra todo o mundo! Prova disso foi que eu vi nessa semana uma gari toda gatinha varrendo a rua e usando um brinco super parecido com aquele da Dior (o da bolinha grande atrás e uma pequena na frente), que foi lançado há pouco mais de um ano. Quer coisa mais incrível que essa?!

Claro que eu tenho muitas críticas à moda, vejo vários aspectos negativos e questiono quase tudo. Mas como eu disse antes, não dá pra explicar totalmente os motivos que fazem a gente amar algo. Para mim, esses tópicos são suficientes para justificar minha dedicação a essa indústria.

– Agora me diz, quais são os motivos para você amar a moda? –